Trump autoriza empresas privadas a hackear redes estrangeiras de golpes com criptomoedas
Donald Trump abre a porta para uma nova forma de retaliação contra redes criminosas estrangeiras. Em um memorando assinado em 12 de agosto de 2026, o presidente americano autoriza certas empresas privadas licenciadas a participarem de operações cibernéticas sob supervisão federal. As redes de golpes com cripto fazem parte dos alvos, mas as regras precisas dessas intervenções ainda precisam ser definidas.

Em resumo
- O programa será supervisionado por um centro de coordenação e dois responsáveis provenientes da Justiça e da Segurança Interna.
- O FBI registrou 181.565 denúncias envolvendo criptomoedas em 2025, com perdas declaradas de 11,366 bilhões de dólares.
- Washington dispõe de 60 dias para definir as regras operacionais do programa. Um primeiro relatório é esperado em 180 dias.
Washington quer ir além do congelamento de fundos
As autoridades americanas já dispõem de várias ferramentas para perseguir redes de golpes com criptomoedas. Eles podem apreender domínios, bloquear ativos ou rastrear os circuitos de lavagem de dinheiro. O congelamento de mais de 700 milhões de dólares ligados a uma rede chinesa é uma ilustração recente.
O memorando assinado por Donald Trump vai mais longe. Agora permite que empresas americanas selecionadas pelo Estado participem de certas operações realizadas diretamente contra as infraestruturas usadas por essas redes criminosas. Não se trata mais apenas de seguir o dinheiro ou apreender fundos depois do fato.
Em seu texto de 12 de agosto, a Casa Branca confia ao National Coordination Center (NCC) a implementação do programa destinado às “Empresas Participantes”.
Para ingressar, uma empresa deverá assinar um contrato com o Departamento de Justiça ou o Departamento de Segurança Interna, passar por um processo de controle e obter autorização escrita antes de cada missão. Dois diretores executivos supervisionarão o dispositivo, um designado pela Justiça e outro pela Segurança Interna.
As empresas participantes são empresas privadas americanas aprovadas no programa e autorizadas a conduzir operações cibernéticas sob a direção do governo dos Estados Unidos.
À primeira vista, o termo “hackear” simplifica o escopo do texto. A ciber-sur vigilância visa a coleta clandestina de informações e pode implicar acesso não autorizado a um sistema.
As operações de efeitos cibernéticos podem manipular, perturbar, degradar ou destruir sistemas ou os dados que eles contêm. Operações que possam provocar morte ou ferimento grave, ou que envolvam o uso da força conforme o direito internacional, estão fora da autoridade de aprovação delegada aos diretores do programa.
As perdas cripto mostram a dimensão do problema
Por que Washington quer ampliar seu arsenal? Os números do FBI dão parte da resposta.
Em 2025, o Internet Crime Complaint Center (IC3) registrou 181.565 denúncias relacionadas a criptomoedas. Isso é 21% a mais que no ano anterior. As perdas declaradas chegaram a 11,366 bilhões de dólares, um aumento anual de 22%.
Esses dados obviamente não representam todas as vítimas. Correspondem apenas aos casos reportados ao FBI. O dano real pode ser maior.
O balanço dos golpes cripto nos Estados Unidos já mostrava a dimensão do fenômeno. Entretanto, o relatório IC3 2025 do FBI traz uma precisão importante: nem todas as denúncias relacionadas a cripto envolvem necessariamente fraudes de investimento.
Essa categoria representa por si só 61.559 denúncias e 7,228 bilhões de dólares em perdas. Em um ano, o número de relatos aumentou 48%, enquanto as perdas cresceram 25%.
Por trás desses números, às vezes existem organizações muito mais estruturadas do que um simples site falso de investimento.
Essa distinção muda a interpretação do memorando. As redes visadas não são apenas sites que recebem depósitos: os esquemas do tipo “pig butchering”, que ganham a confiança da vítima antes de levá-la a uma plataforma fictícia, combinam manipulação social, lavagem transfronteiriça e, em alguns casos, exploração de trabalhadores em complexos clandestinos.
Uma intervenção nas infraestruturas poderia acelerar a identificação ou a perturbação das redes, mas nada no memorando ainda prova que reduzirá as perdas ou permitirá a restituição automática dos fundos.
Resta saber quem responderá pelos erros
O memorando ainda não estabelece o modo de operação. Em 60 dias, a Justiça, a Segurança Interna e o Homeland Security Council devem estabelecer regras para o direcionamento, coordenação e interrupção de uma operação que atinja por engano uma pessoa ou sistema americano. Um relatório está previsto em 180 dias, com uma avaliação anual.
O dossiê do FBI dedicado à rede Tai Chang ajuda a entender o que muda. Nesse caso, a Strike Force afirma ter bloqueado mais de 700 milhões de dólares em criptomoedas ligados à lavagem de dinheiro proveniente de fraudes. Até agora, esse tipo de ação baseava-se principalmente em investigação, apreensão de domínios e confisco de ativos.
Com o novo programa, Washington quer poder intervir mais cedo, especialmente por meio da vigilância clandestina e da perturbação técnica das infraestruturas.
O governo poderá exigir das empresas participantes uma caução ou depósito em garantia de pelo menos 1 milhão de dólares para cobrir certos casos de não conformidade. Entretanto, a versão pública do memorando ainda não detalha claramente o papel que uma autoridade independente teria em caso de erro ou dano colateral.
O problema não é que empresas privadas possam agir sem nenhuma regra. Elas continuarão sob autoridade do governo.
A verdadeira questão é a responsabilidade: quem deverá responder por uma operação que ultrapasse seu alvo ou cause danos a terceiros?
Os procedimentos esperados nos próximos 60 dias devem trazer uma primeira resposta. Eles permitirão principalmente saber até onde Washington pretende delegar suas capacidades cibernéticas ao setor privado.
Para os usuários cripto, o resultado será medido em outro lugar. Frente às fraudes por usurpação que continuam a visar as comunidades cripto, a eficácia do programa dependerá menos do número de redes infiltradas do que da sua capacidade de impedir novas vítimas e, quando possível, recuperar os fundos roubados.
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