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MiCA encerra o capítulo de transição e a realidade alcança o texto

19h20 ▪ 8 min de leitura ▪ por La Rédaction C.
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Em 1º de julho de 2026, o período de transição sob o regulamento MiCA foi oficialmente encerrado: qualquer plataforma de cripto que atenda clientes europeus deve agora possuir uma licença CASP adequada, ou parar de operar. No papel, o regime prometia um caminho claro e rápido. Na prática, até a Binance, a maior exchange do mundo, descobriu o contrário. Analisamos mais de perto com Yuliya Barabash, fundadora e sócia-gerente da SBSB Fintech Lawyers, que assessorou mais de 150 processos de licenciamento mundialmente.

MiCA Closes the Transition Chapter and Reality Catches Up with the Text

Pontos Chave

  • O período de transição do MiCA terminou em 1º de julho de 2026; plataformas não autorizadas devem parar de atender clientes da UE.
  • Cerca de 244 licenças CASP válidas estavam registradas no final de junho de 2026, de quase 3.000 empresas ativas antes do prazo.
  • Binance retirou sua aplicação na Grécia em 24 de junho e suspendeu parte de seus serviços na UE.
  • A lei permite 25 + 40 dias úteis para revisão; o cronograma realista no terreno é de cerca de 10 a 12 meses, diz Yuliya Barabash (SBSB Fintech Lawyers).
  • Os crescentes custos de conformidade estão levando alguns projetos mais jovens a buscarem outras jurisdições, incluindo o Canadá.

Um Corte Mais Rígido do que o Esperado

O regulamento MiCA (Markets in Crypto-Assets) tornou-se plenamente aplicável aos prestadores de serviços de criptoativos (CASPs) em 30 de dezembro de 2024. Os estados membros podiam conceder às empresas já registradas localmente um período transitório de até 18 meses para obter autorização completa. 

Esse período de carência expirou em 1º de julho de 2026: segundo a Autoridade Europeia dos Valores Mobiliários e Mercados (ESMA), qualquer entidade não autorizada ainda oferecendo serviços de criptoativos para clientes da UE agora está em descumprimento da lei e deve encerrar suas atividades de forma ordenada.

Os números mostram o quão rigorosa foi a seleção. No final de junho de 2026, o registro provisório da ESMA listava cerca de 244 autorizações CASP válidas, contra quase 3.000 provedores registrados anteriormente sob regimes nacionais. As autorizações concentram-se fortemente em cinco jurisdições: Alemanha, Holanda, França, Malta e Chipre. Dias após o prazo, o próprio acompanhamento da Cointribune indicou 280 provedores autorizados no registro da ESMA. Entre as plataformas monitoradas por nossa redação, WhiteBIT obteve sua licença MiCA da FMA da Áustria em junho de 2026, enquanto OKX e Bybit EU já operam como hubs licenciados na UE.

Binance, Prova de que Tamanho Não é Suficiente

O caso mais discutido permanece o da Binance. A exchange apresentou seu pedido de licença ao regulador grego (HCMC) em janeiro de 2026 e foi informada em abril que o processo estava completo. Decisões continuaram sendo adiadas, e a Binance retirou sua aplicação em 24 de junho, uma semana após vários veículos relatarem que o regulador se preparava para rejeitá-la. O Wall Street Journal informou ainda que a ESMA aconselhou secretamente as autoridades nacionais a não aprovarem a documentação, citando falhas nos controles contra lavagem de dinheiro. A Binance contesta essas alegações.

O resultado prático: a partir de 1º de julho, a exchange suspendeu novos cadastros e alguns serviços na França, Itália, Polônia e Espanha, enquanto insiste que os fundos dos usuários permanecem acessíveis. 

A chefe da Binance Europa, Gillian Lynch, afirmou que o grupo “não está deixando a Europa” e planeja reapresentar a solicitação, desta vez via França. Para Yuliya Barabash, o episódio ilustra um ponto que ela vem destacando há meses: “MiCA foi criada para players com bolsos fundos e, mesmo assim, o revés da Binance lembra que nenhuma empresa, por mais bem equipada que seja, passa pelo processo sem dificuldades.”

A Lacuna Entre o Texto e a Realidade

Além do caso Binance, Yuliya Barabash aponta para uma questão mais estrutural. MiCA estabeleceu um único conjunto de regras para realidades de negócios muito diferentes: revisar uma startup jovem local, ela argumenta, tem pouco a ver com revisar uma exchange global que opera em dezenas de jurisdições. “O Regulamento subestimou o quanto o tamanho e a complexidade de um negócio afetariam o processo de licenciamento”, diz.

A segunda questão é o timing. No papel, o processo de autorização parecia rápido e previsível. Na realidade, muitas empresas declararam publicamente que esperaram mais de um ano por uma licença. Os reguladores nacionais receberam muito mais aplicações do que o esperado, enquanto pedidos de informações adicionais e capacidade regulatória limitada retardaram tudo. “Um processo que deveria criar certeza tornou-se um dos maiores riscos comerciais para negócios de cripto”, observa.

No papel, os prazos legais parecem curtos: uma verificação de completude de 25 dias úteis, seguida por uma avaliação substantiva de 40 dias úteis, totalizando cerca de 65 dias úteis. Mas esse relógio só começa quando o processo é considerado completo, e não pausa para pedidos de informações (RFIs), que podem se estender por vários meses. “Um horizonte de planejamento mais realista é de 10 a 12 meses. Nenhum menor”, diz Yuliya Barabash, que aponta quatro causas principais: verificações de completude, RFIs dos reguladores, coordenação interna no lado do requerente e a própria carga de trabalho dos reguladores nacionais.

O Verdadeiro Preço de Entrada e Por que Alguns Buscam Outros Locais

Para Yuliya Barabash, a rigidez do marco regulatório não é acidente: “MiCA é um marco sério. Esse é exatamente o ponto. Foi desenhado para empresas com bolsos fundos”, diz, apontando o revés da Binance como prova. É uma observação que ela tira de seu próprio trabalho com clientes: projetos fintech, em sua experiência, não escolhem o Canadá em vez do MiCA porque a jurisdição seja de algum modo “melhor” no abstrato, escolhem porque a regulação, como qualquer outro custo, tem que ser paga com dinheiro real e capacidade organizacional real. “Quando o custo de entrada cresce mais rápido do que o retorno esperado, atores racionais buscam outras alternativas”, resume.

O argumento se encaixa na composição do setor: projetos cripto são, na maior parte, nem grandes corporações nem empresas com departamentos jurídicos internos. São startups, que geralmente não gostam de gastar suas reservas de caixa iniciais em espaço de escritório, equipe local e arquitetura regulatória antes mesmo de confirmarem que há um mercado para seu produto.

Outras vozes na conformidade cripto nuanceiam o quadro. Em entrevista separada, a própria Yuliya Barabash reconhece que o efeito de filtragem opera em duas direções: empresas que não conseguem construir governança de grau institucional não necessariamente desaparecem, mas permanecem estruturalmente limitadas em seu crescimento. “A barreira real não é capital, é maturidade operacional”, observa; uma narrativa regulatória mais clara que, em sua visão, também facilita conversas de captação de recursos e bancárias para empresas que conseguem autorização.

Duas leituras competem por enquanto:

A primeira trata a seleção pós-MiCA como uma limpeza saudável: das cerca de 3.000 empresas ativas antes de julho de 2026, a minoria que permanece pode apontar para um passaporte único válido em 27 mercados, um ponto real de venda junto a bancos e investidores institucionais. 

A segunda vê um risco de saída em câmera lenta: a cada mês sem licença empurra alguns projetos para jurisdições menos intensivas em tempo e dinheiro, com Canadá, El Salvador e Costa Rica surgindo regularmente nos arquivos monitorados por escritórios especializados. 

Uma questão permanece aberta na segunda metade de 2026: quantos dos centenas de processos ainda em análise nos reguladores nacionais obterão autorização antes do final do ano e quantos já terão encerrado suas operações.

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